Eu me lembro de, no final de 1999, comentar com meus amigos sobre um jogo fantástico que sairia para o Dreamcast, o então recém-lançado console da Sega. A internet ainda engatinhava para mim e tinha impacto limitado no mundo, por isso, as informações sobre games vinham das revistas nas bancas de jornal. Conhecimento limitado colaborava para um hype curioso, que envolvia fantasias e exageros sobre os videogames do período. E eu sempre falava empolgado desse RPG com gráficos incríveis, em que seria possível fazer de tudo: pegar ônibus, comprar refrigerante, ir ao mercado e conversar livremente com todas as pessoas no meio da rua. Era Shenmue Chapter One: Yokosuka.
Um título icônico que não foi tão bem
O enredo é centrado em Ryo, um jovem que quer vingança após ver seu pai ser assassinado. Para isso, ele busca informações sobre o paradeiro do assassino em sua vizinhança, numa jornada que envolve confrontos com gangues e aprendizado de novos golpes. De fato, é um jogo com proporções grandiosas para o início dos anos 2000, levando-se em conta que ainda não havia PlayStation 2, tampouco GTA III. Mas ele não foi bem comercialmente, e os astronômicos 70 milhões de dólares gastos em sua produção pesaram no bolso da já combalida Sega.
Entre as principais razões para o fracasso, podem-se destacar algumas: o ritmo do game, muito lento e focado em diálogos; as limitações da liberdade que se tinha - de fato, era possível comprar refrigerantes ou brinquedos em máquinas de venda, mas isso não fazia a menor diferença no seguimento do enredo; ou ainda, problemas em sua mecânica de luta e de movimentação, uma má surpresa vinda do cara que criou o importante Virtua Fighter.
O improvável ressurgimento
Em junho de 2015, a conferência da Sony na E3 fez a mágica acontecer. Yu Suzuki subiu ao palco para anunciar que Shenmue III seria realidade, produzido pelo Ys Net, seu novo estúdio. Isso dependeria da aceitação do público em uma campanha do Kickstarter que, felizmente, foi muito bem-sucedida, e gerou arrecadação maior do que havia sido pedido. Essa cena teve ares épicos, com as câmeras do evento capturando emoção e lágrimas entre os presentes no auditório. Estava tudo certo: Shenmue III seria lançado em 2017 para PC, via Steam, e PS4, com presentinhos especiais para os doadores.
Depois de todas essas idas e vindas, finalmente foi anunciada uma data de lançamento: 19 de novembro de 2019, mais de 18 anos após a chegada de Shenmue II. É um claro motivo para os fãs comemorarem, afinal, agora se tem mais que promessas. Será então que, depois de toda essa expectativa guardada, Shenmue III explodirá como um grande sucesso? Minha aposta é que não, e eu explico.
Uma difícil missão
Neste momento, vou me permitir enxergar com os olhos de Pablo Miyazawa e Rodrigo Russano, jornalistas do IGN Brasil que tiveram a oportunidade de testar uma demonstração de Shenmue III no meio deste ano, na E3. Como entusiastas e gamers das antigas, os dois apareciam em vídeo empolgados com a oportunidade, mas, em resumo, disseram que a gameplay que experimentaram se assemelhava muito com a dos antigos títulos. Pablo, em certo ponto, afirmou que algumas coisas (gráficos, frases) eram engraçadas, mesmo quando esta não era a intenção do jogo. No fim, ambos estavam satisfeitos, mas eu não apostaria que essa seria a mesma conclusão de um público jovem, que não deve contato com o "mito" de Shenmue.
Para além dos gráficos, a dinâmica de gameplay também importa muito, talvez até mais. A referida demonstração, segundo Miyazawa e Russano, tinha ritmo lento, mas vamos dar o benefício da dúvida: isso não é suficiente para uma avaliação definitiva. Fica apenas a expectativa de que recebamos uma experiência mais refinada que a dos primeiros games, com as atualizações que coloquem Shenmue III no patamar do que temos hoje - afinal de contas, é um produto novo, não se trata de apenas um remake.